quarta-feira, 3 de março de 2021

Bloco do Prazer

 

Este carnaval silencioso, melancólico, contaminado, triste, sem Moraes, sem Ademar e nossa furta-cor, sem os trios, sem as fuleragens, sem as muquiranas, sem os blocos afro e de índios, sem a mudança do Garcia (voz da cidade toda!), nos apresenta algumas necessárias reflexões…. Trago, neste pequeno texto e provocação, apenas uma questão (sem a menor originalidade, mas que fingimos (alguns) não ouvir/sentir, há séculos!): o que estamos fazendo com as nossas vidas? Em outras palavras, quanto desencantamento cabe numa existência, e até quando suportaremos tanta violência? Para tanto, peço ajuda aos indispensáveis artistas da nossa música popular, Moraes Moreira e Fausto Nilo, que já registravam na canção frevo-carnavalesca Bloco do Prazer, lá pela década de 1980, que “(…) a vida tá pouca e eu quero muito mais…”.

Sim, precisamos de paixão e de utopia, de carne e de carnaval, mas, senhores poderosos deste lugar, também queremos e precisamos de vacina, de respeito a todxs, de um projeto de nação acima das corporações político-partidárias, de emancipação, de soberania no jogo geopolítico mundial, de um estado laico, de menos concentração de renda e oportunidades, de equidade antes do discurso de meritocracia… Ainda que presente e cada vez mais real, vamos combinar que “tá chatona” esta visão distorcida e míope de convivência utilitária, do capital hegemônico, especulativo, explorador e desestabilizador de países e democracias. No português das quebradas, é preciso pegar a visão de que é tiro no pé, deselegante e fora de moda já em países nórdicos e no Canadá também, por que não dizer… Pega visão de uma vez, “pra libertar seu coração”…!

A antiguidade destes temas aqui expostos (exploração, desigualdade e desencantamento dos sujeitos) é um sinal explícito de que algo não vai bem há muitos carnavais… Mas o que fazer? Fugir para a Chapada Diamantina ajuda, mas não vai resolver… Postagens em redes e armadilhas sociais ajudam, mas não são o suficiente… Pergunte a você mesmo o que “(…) da vida arrasa e contamina o gás que embala o balancê”? Aliás, qual é o seu balancê, bebê? Ou só vai de BBB? Vá ali e volte já, tudo bem… Vamos continuar juntos, porque esta bagaça é nossa e precisa melhorar! Vamos, “feito loucos”, porque fomos de razão até agora, e está tudo muito estranho, não é verdade?!

Então, vamos “(…) meu amor, feito louca, que a vida tá pouca…” e… meus dois amigos psicólogos sumiram, de tanto trabalho… Amanhã, não aparecerão porque sentiram o baque virado da contemporaneidade excludente… que triste… Voltem! A marcha dos desumildes não está lenta, dista de equilíbrio, e a gente quer e merece muito mais, também, se liguem! A dor deixou de arrebentar e passou a estraçalhar, então, fique peixe, se plante, cuide de sua rua, bairro, canteiro, quintal, coração… Faça isto com alma, e vamos reduzir, consideravelmente, a quantidade de farmácias nas esquinas e calçadas sem árvores…  

  Qual é o balancê? O balancê é o da leveza, da altivez e da integridade. Da certeza que precisamos ecoar e reverberar mais as insatisfações e, também de atitudes diárias, incessantes, que prezam e evocam um futuro/presente melhor, de cores vivas, e alto, mas muito alto astral, porque eles passarão e veremos, de mãos dadas, que vale a pena sonhar e alimentar utopias, mas sempre com on no modo atitude. Atitude, aliás, também parece ser a questão. Como num looping, evitando esquecimentos, eis que voltamos às provocações iniciais: o que estamos fazendo com as nossas vidas, e até quando suportaremos tanta violência? Vamos passar para a próxima postagem mesmo, sem, contudo, termos virado a página de nossa trágica história?  

Este carnaval não deu, e foi melhor assim, sabemos. Então, se chegue, e cole na corda do já anunciado Bloco do Prazer, que também é da reivindicação de uma melhor condição humana para todxs, independente de qualquer categoria, binômio, logradouro, mistério, ministério, continente, bob de cabelo etc. Mas já nos considero na concentração de outro mais importante, sabe por quê? Por que esperança é a “fina flor do meu jardim”!

Abração,








Armando Castro é Professor da área de Música e Cultura do CECULT/UFRB

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terça-feira, 2 de março de 2021

Geografia, informação e negacionismo em tempos de Pandemia

 

Autor: Peterson Azevedo
Publicado em Plataforma Anísio Teixeira: http://pat.educacao.ba.gov.br/blog/conteudo/exibir/1947987
O Professor Milton Santos, intelectual e ganhador do prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado o Nobel da Ciência Geográfica, propõe que a Geografia Crítica possui, como um dos principais objetos de estudo, interpretar criticamente a construção do Espaço Geográfico antropizado e suas relações com o ambiente natural, por meio da política e da tecnologia. Milton nos alerta, ainda, para a importância da comunicação, como um dos principais agentes de comando/controle da sociedade. Freire (1987) argumenta que os invasores modelam; os invadidos são modelados. Os invasores optam; os invadidos seguem sua opção. Milton sinaliza, também, acerca do domínio de grandes nações poderosas, por intermédio do que ele chamou de “globalização perversa” e seus braços políticos, a qual ele denominou de revolução técnico-científica-informacional. Neste texto, vamos dar ênfase aos processos informacionais, em especial aos processos comunicacionais digitais informáticos. O que William Gibson (1984) chamou de ciberespaço e Lévy ampliou seu conceito para as relações de produção do conhecimento e suas interações colaborativas na era digital da comunicação e informação. 
Para Lévy (1999, p. 92), o ciberespaço é um espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Além de conectar pessoas e saberes, em um processo altamente veloz e colaborativo. Será que estamos utilizando o ciberespaço em todos os seus benefícios tecnológicos e de produção científica colaborativa e ética? Será que já saímos da caverna Platônica? O ciberespaço se tornou o repositório digital para a pós-verdade?No final do ano de 2019 e início de 2020, o mundo foi acometido por um surto pandêmico de SAR-S COV – 2 ou Coronavírus (2019-nCoV), causando uma doença chamada de COVID-19, com alto poder de transmissibilidade e que ataca severamente o sistema imunológico, causando letalidade e quando não, deixando de herança, efeitos colaterais graves ao organismo humano. O surto foi notificado, primeiramente, em Wuhan, na China, em 31 de dezembro de 2019. Segundo o mapa mundial, desenvolvido pela Universidade Johns Hopkins, o Mundo em 01 de Março de 2021, quando foi escrito este texto, apresentava 114.099.454 casos da doença, sendo 2.531.489 mortos em 192 países. O Brasil, nesta data, já atingiu a marca recorde de 1.433 mortes em 24h, chegando a 254.942 mortes desde o início da pandemia, sendo o segundo país do mundo em números de mortes, ficando atrás apenas dos Estados Unidos da América. O mundo, em 2021, já está vivendo o que se chamou, de segunda onda de contágio e letalidade do coronavírus. Até o momento, já foram descoberta três importantes mutações do vírus, a cepa do Reino Unido, a cepa Brasileira (oriunda de Manaus) e a cepa Sul-africana, que podem apresentar uma transmissibilidade, popularmente, chamada de transmissão de “rebanho” mais rápida. A Bahia, neste período, apresentou um aumento de 60% dos casos e já colapsou a sua rede de saúde, tanto em leitos públicos, como em leitos privados. O Estado, nesta data, apresentou 664.037 casos confirmados, com o total de 11.819 mortos. 
Imagem 1 - Foto: Peterson Azevedo

Apresentando estes dados estarrecedores e preocupantes à existência da vida humana no Planeta, a Geografia é uma das mais importantes ciências que pode auxiliar a entender melhor esses números, especificamente a Geopolítica e suas relações diplomáticas e de intercâmbio global. As Nações Unidas realizam um trabalho muito difícil, ao apresentar aos países, o perigo e as consequências sociais, econômicas e psicológicas desta pandemia, além de ser uma instituição integradora e mediadora de conflitos no pós-guerra. Nunca na ciência, os pesquisadores desenvolveram uma vacina em tempo recorde, mostrando-se eficiente e eficaz no combate ao vírus. Mas o que se vê, em determinados países do mundo, é o descumprimento dessas sugestões feitas pela ONU, por motivos ideológicos, conservacionistas e políticos. O termo Geopolítica foi criado pelo cientista político sueco Rudolf Kjellén no início do século XX, ele baseou-se na obra do geógrafo alemão Friedrich Ratzel “Politische Geographie” (Geografia Política), de 1897. Para Ratzel, a geopolítica resumir-se-ia em superioridade de poder de um Estado sobre o outro, ou seja, serviria aos propósitos de guerra. Entretanto, foi o grande humanista, geógrafo e possibilista, o francês Paul Vidal de La Blache (1845-1918), que afirmou que a geopolítica é bilateral e tem como função geográfica possibilitar a integração das nações, por meio do diálogo. Assim, os Estados mais ricos e poderosos devem auxiliar a troca de tecnologias entre os países em desenvolvimento, para que haja o pleno desenvolvimento dos continentes e suas nações, deve prevalecer o diálogo, a ajuda mútua e a paz. Ou seja, a geopolítica é a ciência das relações internacionais, que tem como objeto de estudo, o pleno desenvolvimento do mundo e a manutenção da paz. 
O atual governo brasileiro realiza uma gestão desastrosa, ineficiente e ineficaz e, vem fracassando nas relações geopolíticas, principalmente com países chave, para a economia do país, como é o caso da China e da Índia. Este atual governo vem, ainda, fracassando na gestão da saúde pública, no combate ao vírus, além de sucatear setores importantes do desenvolvimento do país, como: economia, saúde, educação, emprego e meio ambiente. O Brasil é governado por uma ideologia extremista, conservadora, discriminatória e negacionista. E é este tema – o negacionismo e suas ferramentas comunicacionais (conhecidas popularmente como fake news), que pretendo abordar neste texto. Segundo a etimologia da palavra negacionismo: é a ideologia de quem nega um fato comprovado e documentado ou analisa esse fato partindo de argumentos ou opiniões não fundamentadas em verdades históricas e científicas. A sociedade comunicacional vive o mundo apocalíptico da informação, a religião tornou-se, simbolicamente, o condutor cientificista da sociedade ocidental e a condutora de ideologias extremistas e conservadoras. Acreditam que as transformações antrópicas, como aquecimento global, epidemias, pandemias, fome e desigualdades são frutos divinos e não de interesses capitalistas e de manutenção do poder da humanidade. Com isso, surgem “gurus” do negacionismo científico, os quais negam que esses fatores antrópicos sejam frutos de um desequilíbrio entre a devastadora ganância economicista e os recursos naturais. Para isso, utilizam-se da comunicação digital e da pós-verdade como balizadores de suas pseudoteorias, doutrinando, assim, populações mais vulneráveis no sistema global, em especial os países mais pobres, que possuem sérias deficiências intelectuais, de formação e acesso à informação e fatos concretos e comprovadamente checados. Isso não quer dizer que as instituições públicas e privadas de comunicação são idôneas e estão imunes às fakes news.
Imagem 2 - Foto: Peterson Azevedo


Por isso, prevalece a importância da checagem dos fatos, em mais de uma fonte, e, principalmente, partindo de fontes reconhecidamente oficiais e de responsabilidades jornalísticas/informáticas/comunicacionais. Podemos identificar as estratégias da propagação das fakes news, em fases distintas: a primeira fase constitui-se na negação da verdade e na minimização do fato (é só uma gripezinha); Na segunda fase, é onde se tenta convencer a população de que os fatos são estratégias para propagar o pânico e o medo, com objetivos ideológicos; A terceira e mais perigosa fase é a produção falsa de ideias, notícias, cientificismo sem bases teóricas, e a utilização do ciberespaço para propagar mais aceleradamente estas estratégias de gadificação da população. É, nesta fase, que as fakes news ganham os códigos binários e navegam rapidamente pelos computadores e smartphones. Geralmente, esses textos são palatáveis, simples e rasos, para facilitar o entendimento dessa população que, como relatei anteriormente, tem grandes fragilidades intelectuais, formais e de interpretação mais profundas e sistêmicas, são facilmente conduzidas como manadas. É, nesse momento, que os “gurus” do negacionismo começam a ditar as regras e a comandar os processos de comunicação e informação. Tornando-se elos perigosos à ciência e à luta contra a pandemia, as questões sociais e ambientais no mundo. Aí, sim, podendo, efetivamente, estabelecer o ódio, o caos e a desordem, ou seja, o verdadeiro apocalipse informacional. 
Cheque, busque, lute pela ciência e pela verdade.

 

#Vacina sim! – https://www.youtube.com/watch?v=zWBnuCfUKns

FAKE OU FATO .https://g1.globo.com/fato-ou-fake/coronavirus/

Peterson Azevedo

Professor da Rede Estadual e da Rede Anísio Teixeira/IAT.

 

 Referências

 

Bauman, Z. Modernidade líquida. (P. Dentzien, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2001.

 

Castells, M. A sociedade em rede. (R. V. Majer, Trad.). São Paulo: Paz e Terra. 2006.

 

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 17ª. Ed. Rio de Janeiro, Brasil: Paz e Terra, 1987

 

HARVEY, D. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005 (2001).

 

Lévy, P. Cibercultura. (C. I. da Costa, Trad.). São Paulo: Ed. 34. 1999.

Imagem 2 – Foto Peterson Azevedo

MORAES< Menezes Joalva. Ações  Governamentais na luta contra COVID 19 – Um estudo de caso nas instâncias Municipais e Estaduais em Salvador/Bahia/Brasil. TESE (Doutorado) (Universidade Aberta. Portugal. 2021 

 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008 (15ª edição). 

_______. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985.



 

_______. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988. 

 

SILVA, Taziane Mara; TEIXEIRA, Talita de Oliveira; FREITAS, Sylvia Mara Pires. 

Ciberespaço: uma nova configuração do ser no mundo. Acesso em: 24 de fev. de 2021.                                                                     








VERAS, Thor João de Sousa Veras. Negacionismo viral e política exterminista: notas sobre o caso brasileiro da Covid-19. 2020. Disponível em:  http://pat.educacao.ba.gov.br/recursos-educacionais/conteudo/exibir/12761. Acesso em: 25 de fev. de 2021. 

Casos de COVID. Disponível em:  https://news.un.org/pt/tags/casos-de-covid-19-no-mundo. Acesso em: 01 de mar. de 2021. 

Casos de COVID-19 no mundo. Disponível em:  https://coronavirus.jhu.edu/map.html. Acesso em: 01 de mar. de 2021. 

COVID na Bahia. Disponível em:  https://bi.saude.ba.gov.br/transparencia/. Acesso em: 01 de mar. de 2021.

Etimologia da palavra negacionismo. Disponível em: https://www.dicio.com.br/negacionista/#:~:text=Etimologia%20.  Acesso em: 24 de fev. de 2021

Fato ou Fake sobre o Coronavírus. Disponível em: https://g1.globo.com/fato-ou-fake/coronavirus/. Acesso em: 24 de fev. de 2021.

     Geopolítica. Disponível   em: https://www.sogeografia.com.br/Conteudos/GeografiaEconomica/geopolitica/geopolitica.php. Acesso em: 24 de fev. de 2021.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Primeiros habitantes




Fig. 1: Tupinambá a caminho da escola. Foto: Geraldo Seara.

Havia uma coisa que a primeira professora do lugar onde nasci não sabia. E se soubesse, teria procedido de um outro modo. É que sua escola ficava muito próxima da zona rural da cidade de Camacã e, com frequência, era visitada por alguns indígenas locais. E mesmo que estes não fizessem nada e também que nada dissessem, causava medo. Esse medo era provocado pelas histórias dos colonizadores que sempre mostravam os indígenas como selvagens e perigosos. Eles entravam na sala de aula e, ao contrário do que se esperava que acontecesse, eles apenas ficavam parados, observando. Mesmo assim, a professora lhes oferecia doces e presentinhos, de tanto medo que sentia. E eles voltavam sempre. 

Recorri aos relatos orais de parentes da professora, que, por sua vez, escutaram de seus pais, de seus avós. E cada vez que ouço as narrativas, tenho mais certeza de que não era atrás de doces e presentes que os indígenas retornavam àquela escola. Eles queriam aprender mais e sabiam, por observação, que ali era lugar de se fazerem iguais. Se soubesse – e pudesse –, aquela professora os teria incluído, de tão atentos que eram à mágica dos riscos no quadro de giz, que faziam as crianças entoar vogais, sílabas e versos, o que os deixava maravilhados. Certamente, era isso que buscavam.

Esses kamakã, talvez, tivessem como inspiração o indígena que tinha se tornado muito conhecido na região por sua luta pela recuperação das terras invadidas, principalmente no tempo da expansão da lavoura cacaueira. Esse outro indígena, conhecido como Caboclo Marcellino, sabia ler e escrever e, além disso, era eleitor. Isso, segundo a imprensa da década de 1930 e seguintes, fazia dele um aproveitador da ingenuidade indígena. Era clara a intenção de desqualificá-lo como liderança, imputando-lhe, inclusive, crimes hediondos, os quais nunca foram comprovados. Mesmo assim, foi preso e torturado. Seu paradeiro, até hoje ninguém sabe.

Fig. 2: Reportagem de 03/11/1930 sobre primeira prisão de Marcellino.

Em 19 de abril de 2018, o Caboclo Marcellino foi absolvido de todas as acusações, no 3º Júri Simulado, promovido pela Defensoria Pública da Bahia. Isso teve grande significado para os Tupinambá de Olivença, que têm lutado para que seja conhecida a história real desse grande herói dos povos indígenas. No site da Defensoria, estão postas as palavras da diretora da Escola Superior DPA/Bahia, Firmiane Venâncio, quando disse que “esse julgamento foi muito representativo, até porque o Brasil vive um problema, que é a criminalização das lideranças dos povos indígenas, negros, dos movimentos sociais. É importante conhecer esses personagens para sabermos por que que a gente errou nesse ponto da história que vivemos hoje”. 

Fig. 3: Júri simulado, promovido pela Defensoria Pública da Bahia, em 2018.
"Julgo improcedente a ação penal movida contra Marcelino José Alves, índio caboclo Marcelino, absolvendo-o de todos os crimes que lhe foram atribuídos na denúncia” – sentenciou o simbólico Egrégio Tribunal do Júri. In: Defensoria Pública. Foto: Defensoria Pública.


Em 2014, o Instituto Anísio Teixeira enviou à Escola Estadual Tupinambá de Olivença o do Curso de Interpretação e Produção de Vídeos Estudantis. Em duas semanas, a comunidade escolar indígena se empenhou na aquisição e prática de conhecimentos técnicos da arte de interpretar e de fazer registros em vídeo. Quando da escolha do roteiro a ser gravado, não pensaram duas vezes: indicaram o Caboclo Marcellino como tema para a produção audiovisual. Assim, o livro escrito por Katu Tupinambá e Casé Angatu foi transposto para a tela, tendo, como atores, a comunidade escolar indígena, que se revezaram nos bastidores como produtores, cinegrafistas, continuístas, aderecistas e maquiadores, etc.

Fig. 4: Professor Nildson B. Veloso, de branco,
dirigindo uma cena de Caboclo Marcellino. Foto: Geraldo Seara.

Durante as aulas, ensaios e gravações, houve momentos para reflexões e identificação da velha fórmula de sempre: desqualificar para neutralizar; desinformar para confundir e dominar; martelar a mesma informação falsa para influenciar. Ao longo dos séculos, em toda parte, a depender dos interesses, o padrão se repete. Foi assim também quase dois mil anos atrás...
Assista ao documentário sobre a formação:



Que não seja apenas este dia dedicado aos primeiros habitantes desta terra. 


Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Educação da Bahia


Saiba mais:
Composição do estudante indígena Juninho Tupinambá contra o preconceito:
Preconceito Não!


Série Faça Acontecer:
Ana Beatriz, estudante Tuxá, premiada no FACE 2011.



REFERÊNCIAS
Júri Smulado realizado pela Defensoria Pública da Bahia: http://defensoria.ba.def.br/arquivo/noticias/ilheus-juri-simulado-da-defensoria-absolve-o-indio-caboclo-marcelino-de-todas-as-acusacoes

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Corpo de Bombeiros Militar da Bahia: luz, câmera, ação!


Olá, pessoal!
Nos dias 27, 28 e 29 de novembro, no Instituto Anísio Teixeira (IAT), a Rede Anísio Teixeira ministrou um Workshop sobre produção audiovisual. O mesmo teve, como publico de destino, alunos oficiais do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia. Foram quarenta e oito participantes que, durante os três dias de evento, demosntraram muito interesse e proatividade em relação ao conteúdo abordado.

Fig.1: Alunos oficiais do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia durante o Workshop. Foto: Rodrigo Maciel

Esse encontro possibilitou, por demanda do Corpo de Bombeiros, o trabalho com um dos cinco módulos (Uso de software e licenças livres, Produção textual para multimeios, Fotografia, Produção audiovisual e Rádio) que fazem parte da formação “Produção de Mídias na Educação” da Rede AT. Nesse sentido, durante os encontros, foi trabalhado o módulo de “Produção audiovisual”, considerando seus processos de concepção e produção. Na oportunidade, os cursistas aprenderam noções básicas de roteiro para ficção, documentário e vídeo tutorial, etapas de produção, linguagem audiovisual e edição de vídeo. Também, durante todo o evento foram abordados temas voltados para questões éticas, tais como: direito autoral, licenças livres, autorização para uso de imagem e áudio e boas relações interpessoais.

Fig.2: Professor Geraldo Seara em aula de edição audiovisual Foto: Marcus Leone

Durante o workshop, os cursistas conheceram os equipamentos usados em diversas produções audiovisuais da Rede AT. Contudo foram priorizadas e trabalhadas técnicas eficientes para uso de celulares na realização dos vídeos, pois trata-se de um dispositivo móvel de fácil portabilidade, que os militares dispõem e através do qual podem fazer uso nas produções mais simples, considerando seus objetivos.

Fig.3: Cursistas exercitado captação de imagem e som com o professor Marcus Leone. Foto: Geraldo Seara.


Fig.4: Cursistas em aula de captação de imagem com o técnico Rodrigo Maciel e o professor Marcus Leone. Foto: Geraldo Seara.

Os processos audiovisuais de ensino e aprendizagem, durante o evento, se desenvolveram mediante práticas pedagógicas há muito fundamentadas nas atividades da Rede Anísio Teixeira, ou seja: em tais processos, a perspectiva efetivamente dialógica, contextualizada, ética, crítica e a realização colaborativa de conteúdos autorais são inerentes ao Know how formativo e de produção de conteúdos da Rede Anísio Teixeira.

Fig.5: Cursistas assistindo ao vídeo produzido por eles durante o processo. Foto: Peterson Azevedo.

Nos três dias, os mediadores (professor Geraldo Seara, professor Marcus Leone e o técnico Rodrigo Maciel) e os cursistas aprenderam e ensinaram muito. Foram momentos de teorias, experimentações e muita reflexão. O ensino e a aprendizagem, mais uma vez se fizeram em via de mão dupla. Os formadores, assim como os cursistas, aprovaram a interação e os conhecimentos adquiridos durante as aulas. “O conhecimento sobre a produção de vídeos vai servir para a nossa construção de vídeos educativos, prevencionistas para que o Corpo de Bombeiros chegue mais perto da sociedade”, disse a aluna oficial Arilma Santos. O aluno oficial Gilvã Rodrigues também disse: “É importante esse curso para nosso trabalho porque estamos buscando fazer um tutorial que possa levar uma mensagem para toda a comunidade”.

Fig.6: Cursistas em simulação para gravação de cena. Foto: Rodrigo Maciel

Certamente, para ambos os lados, foram momentos importantes e significativos de aprendizagem. Como em vários momentos do curso, após cada assunto abordado, os mediadores ouviram dos cursistas, de forma enfática, o termo “MB”, sem dúvida, a Rede Anísio Teixeira retribui, com o mesmo entusiasmo, o referido termo que significa “MUITO BOM!” Isso se destina tanto para os participantes da formação quanto para todo o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia. E é exatamente assim que podemos definir os ganhos desse processo.
Sigamos em frente com força e sensibilidade sempre!

Fig.7: A turma reunida com os professores Geraldo Seara e Marcus Leone. Imagem feita por um dos cursistas.

Marcus Leone Oliveira Coelho
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Publicado originalmente em 
http://blog.pat.educacao.ba.gov.br/blog/2017/12/03/corpo-de-bombeiros-militar-da-bahia-luz-camera-acao/

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

VI SERNEGRA Leva Discussão Sobre Negritude e Gênero para o Vale do Itajaí/SC


IFSC - Campus Gaspar


A VI Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça – SERNEGRA ocorreu entre os dias 09 e 11 de novembro de 2017, no Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Gaspar, na região do Vale do Itajaí, também conhecido como Vale Europeu.

O evento SERNEGRA foi idealizado pelo Grupo de Pesquisa Estudos Culturais sobre Classe, Gênero e Raça, do Instituto Federal de Brasília, onde  aconteceram as edições anteriores. O interesse em levá-lo para Santa Catarina foi da professora Renata Waleska Pimenta– Coordenadora do NEABI – Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, do Campus Gaspar. Para os organizadores, essa iniciativa está em consonância com a trajetória do IFSC – Campus Gaspar, no que se refere à temática, principalmente, através das ações do NEABI junto à comunidade, ao fomentar processos formativos voltados para a inserção cultural de imigrantes e refugiados haitianos que passaram a viver, nos últimos anos, no Vale do Itajaí.

Nessa VI edição, a temática que direcionou as discussões dos Seminários Temáticos, Oficinas, Painéis Temáticos e dos Pôsteres foi Educação, Transdisciplinaridade e Diáspora. Foram 12 Seminários Temáticos que ocorreram na tarde, do dia 10, e discutiram temas como o enfrentamento do racismo e das questões de gêneros nas manifestações artístico-culturais e na pesquisa científica, na Educação, nas Ações Afirmativas e nas redes sociais digitais.

O grupo de educadores da Rede Anísio Teixeira que participou do SERNEGRA 2017 apresentou trabalhos no Seminário Temático 01 – Manifestações Artísticas e Culturais no Enfrentamento do Racismo na Educação Formal e Informal, sendo: Repositório de Conteúdos Livres Aberto à Comunidade Escolar, Joalva Moraes; Rádio Anísio Teixeira – Uma Experiência em Arte-Educação e Comunicação no Ambiente Escolar como Enfrentamento do Racismo, Carlos Barros; Formações Audiovisuais para Estudantes de Escolas Públicas, Fátima Coelho; Programa Educativo de TV Discute Diversidades, Geize Gonçalves.

Além dessas comunicações orais do ST 01, também foram apresentados outros trabalhos: Cultura Afro-Brasileira e a Construção de Identidade Quilombola: Um Estudo de Caso Sobre as Manifestações Artístico-Culturais no Território Quilombola de Canarana - Estado da Bahia, Claudia Pessoa; Um Cantar a Própria Vida: O Marabaixo como Elo Entre a História e Memória de Afrodescendentes, Mônica Nascimento; e A Dança Afro como Possibilidade de Conteúdo em Artes e Educação Física: Estudo de Revisão, Anderson da Silva Honorato e Andressa Vitorinho Cerqueira.


Integrantes do Seminário Temático 01



Para o compartilhamento dessas experiências tão enriquecedoras, a Rádio Anísio Teixeira vai produzir uma edição especial do programa Nas Ondas da Rede sobre o VI SERNEGRA. Foram entrevistados o professor Fernando Mezadri, membro da Comissão Organizadora e Científica, e a professora Anna Maria Canavarro, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN. Confira, em breve, os vídeos com making of dessas entrevistas.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Geografia e seus caminhos – contribuições na era da informação


Por Peterson Azevedo

Hoje, nosso papo é sobre os caminhos trilhados pela geografia contemporânea ou como alguns autores costumam chamar: geografia crítica. O termo “geografia” é utilizado desde o período conhecido como Antiguidade Clássica, termo muito utilizado para descrever os “acidentes” geográficos, ou melhor, os aspectos fisiográficos do planeta, como: o relevo, os tipos de biomas, as funções hídricas e físicas do rio, dentre outras. Por ser filha da ciência filosófica, a observação foi o ponto de partida para essa área do conhecimento humanista. Apenas no início do século XIX, passou a ganhar pompas de uma ciência concreta e aceita nas academias da Europa. Duas escolas se destacaram nesse processo: a escola Alemã, com sua teoria do determinismo geográfico, que deu início ao processo de interpretação do espaço como forma de poder e conquista. Os principais pensadores desse período foram Humboldt, Ritter e Ratzel, que reafirmava que o território e sua expansão eram vitais para a construção de uma sociedade imperialista. Afirmava também que o ambiente(natureza) condicionava as relações sociais e poderiam dificultar ou ampliar as condições de sociabilidade, ou seja, o homem era visto apenas em seu aspecto biológico. Sendo assim, desconsiderava-se seu aspecto social. Muito dessa teoria fortaleceu o discursos expansionista da Alemanha do início do século XIX.

Outra escola muito importante para o pleno desenvolvimento do conhecimento geográfico foi a Francesa, principalmente com o geógrafo Vidal de La Blache, liberalista, grande crítico da teoria alemã do determinismo geográfico – e sugeria, como contraponto ao pensamento de Ratzel, a teoria do Possibilismo Geográfico, na qual propõe que o homem seja o principal ator condicionante e modificador do meio, ou seja, o ponto de partida do pensamento geográfico. É na escola francesa que o homem e suas transformações no meio ambiente, por meio do trabalho e de suas tecnologias, se firmam como o principal objeto de estudo da Geografia moderna. Apesar do liberalismo francês, a Geografia ainda estava muito prisioneira do “poder” e da geopolítica de expansão territorial, como afirmou o geógrafo Yves Lacoste: “isso [a geografia] serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”(LACOSTE, 1989 p.1).

Em meados do século XX, a Geografia Crítica passa a ter um papel mais atuante nas questões de empoderamento social, propondo de forma crítica uma leitura de mundo que possibilite romper as amarras com o poder do capital, a geografia passa agir de maneira libertária, passando a atuar além dos muros da escolarização, deixando de ser apenas uma disciplina escolar e passando a configurar como instrumento de política pública, construindo também alicerces. Quando a ciência geográfica passa a ter um olhar mais crítico sobre o espaço construído e suas relações sociológicas e tecnológicas, muitos geógrafos passam a expor seus pensamentos de maneira mais libertária e crítica. Os mais importantes geógrafos da época foram Pierre George e David Harvey, que passam a estabelecer diálogos mais próximos com a sociologia, filosofia e a antropologia, em especial um diálogo mais amplo com a teoria marxista, discutindo como os espaços geográficos eram dinamizados e organizados de acordo com os bens de produção e os conflitos estabelecidos pela luta de classes.

Um geógrafo também entusiasta dessa linha de pensamento libertário e crítico foi o nosso baiano de Brotas de Macaúbas e um dos maiores nomes do pensamento geográfico na contemporaneidade. Estamos falando do intelectual e professor Milton Santos, ganhador do prêmio nobel da geografia, o Vautrin Lud, em 1994, com o livro Por uma geografia nova, da crítica da geografia a uma geografia crítica (1978). O professor Milton Santos propõe que o espaço geográfico se torne o principal objeto de estudo dessa ciência, que passa cada vez mais a ver o homem e suas estruturas de trabalho como condicionantes de suas análises interpretativas. Um dos objetos mais discutidos por ele é o intenso processo da Globalização econômica, instituído e dominado pelos países detentores do capital moderno. Milton afirmava que o processo de globalização não deveria ser controlado pelas classes dominantes e, sim, deveria ser demandado e incrementado pelas bases sociais do espaço construído, o lugar deve ser mais importante que o espaço mundializado.

No início do século XXI, com a intensificação e massificação das novas tecnologias da informação e da comunicação, o pensamento geográfico, que já estava consolidado como uma ciência humana e crítica, passa a se tornar cada vez mais uma ciência do poder, ou melhor, do empoderamento popular, ao alcance de todos, se tornando possivelmente uma ciência de contraponto ao unilateralismo do pensamento. E o que a geografia pode contribuir com a sociedade da informação? Não podemos negar, na contemporaneidade, as diversas forma de leituras e da construção de novas configurações de diálogos com o mundo “globalizado”, que vão além da palavra escrita. A imagem e, em especial, a fotografia, vem se tornando um forte instrumento de leitura e interpretação do espaço geográfico. Para Sontag, “a fotografia é um fenômeno que ocupa lugar central na cultura contemporânea”. A imagem pode ser uma forma mais dinâmica e um poderoso instrumento de diálogo no mundo globalizado, já que a escrita visual independe de entendimento direto, no que se refere à linguística, amplificando o modo de se expressar, por meio da interpretação imagética. A imagem deve ser compreendida como instrumento dialógico crítico no tempo e no lugar, problematizando e contextualizando as relações que se estabelecem no espaço geográfico e suas implicações. A imagem fotográfica produzida deve ser entendida e interpretada como sendo parte conceitual e de identidade do seu interlocutor. Quem produz uma imagem, conta sua própria história! Fotografar é construir uma narrativa visual própria, é compartilhar seu repertório cultural/geográfico, compartilhar sua territorialidade. Hoje, com a popularização das redes sociais, dos objetos educacionais livres, a democratização tecnológica nas produções audiovisuais e ao acesso aos aparelhos de telecomunicações, o ensino da geografia tem a possibilidade de democratizar seus discursos, desprendendo-se do chão acadêmico, que tanto os polariza. O professor e o estudante, principalmente da escola pública, passam a ser coautores de suas aprendizagens, deixando de serem meros espectadores do pensamento geográfico.

Como vimos amigos, a Geografia passou por diversas fases no desenvolvimento do pensamento humano e, por ser dinâmica e contemporânea, vem ampliando sua capacidade de ler e interpretar o espaço, livre das amarras do poder, possibilitando assim um olhar mais crítico sobre as relações sociais que se configuram e reconfiguram no “fazer” o mundo.

Deixemos as ciências humanas fazerem seus papéis: democratizar o pensamento.

REFERÊNCIAS

CLAVAL, Paul Charles Christophe. Geografia Cultural: um balanço. Geografia (Londrina), Londrina, v. 20, n. 3, p. 005-024, set./dez. 2011.<http://www.uel.br/revista/uel/index.php/geografia>

YVES, Lacoste. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2. ed. Campinas: Papirus, 1989.

Acesso em 02 de março de 2017 file:///home/peterson/Downloads/23-106-1-PB.pdf

Acesso em 02 de março de 2017 http://miltonsantos.com.br/site/biografia/

A Geografia e as mídias e tecnologias educacionais livres

Acesso em 02 de março de 2017 http://ambiente.educacao.ba.gov.br/

Acesso em 02 de março de 2017 http://geografiavisual.com.br/

Acesso em 07 de março de 2017 http://mira.educacaoaberta.org/





 
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